Começar o documentário Burning Ambition com a frase de Bruce Dickinson (vocalista) dita durante a turnê do disco The Final Frontier (2010) – “Não importa se você é homem, mulher, muçulmano, cristão, católico, judeu… nada disso importa: se você é fã de Iron Maiden, então você é fã de Iron Maiden e faz parte de um mundo e de uma família, meus amigos” – define a linha narrativa que a obra vai guiar o fã por 1 hora e 47 minutos.
Dirigido por Malcolm Venville e produzido por Dominic Freeman, a obra pontua alguns dos momentos mais marcantes da carreira da banda – o que inclui quatro menções ao Brasil -, traz relatos de fãs, jornalistas, donos de gravadoras e músicos famosos como Scott Ian (Anthrax), Tom Morello (Rage Against The Machine), Gene Simmons (Kiss), Simon Gallup (The Cure) e até o ator Javier Bardem. Além disso, integrantes e ex-integrantes também participam da obra, embora sem aparições em vídeo — contribuindo apenas com depoimentos em áudio sobre temas que, em grande parte, já são conhecidos pelos fãs e foram melhor abordados em documentários anteriores. Vale lembrar que Burning Ambition não foi produzido pelo Iron Maiden, por isso o envolvimento limitado dos integrantes é perceptível.
A pouca participação de Steve, Bruce, Adrian, Janick, Nicko e Dave não prejudica o documentário, mas põe o espectador na parte rasa de um oceano cheio de histórias a serem melhor exploradas. Burning Ambition brilha ao falar de Eddie, o mascote da banda que foi muito responsável pela popularidade do grupo britânico no começo dos anos 1980, e por trazer relatos de fãs explicando porquê o Iron Maiden é importante para eles.
Uma admiradora do Líbano, país assolado por uma guerra civil entre 1975 e 1990, compartilhou um momento emocionante ao revelar que se identificava com as letras do disco “Fear of The Dark” (1992). Outro, de Kosovo, local também impactado por um conflito geopolítico na década de 1990, conta que uma comunidade heavy metal foi criada em sua região por conta do hábito de trocar fitas, especialmente do Iron Maiden.
Ainda sobre conexão, o documentário destaca a intensidade da relação entre o Iron Maiden e os fãs poloneses durante a World Slavery Tour, em 1984. Em plena Guerra Fria, vivendo sob um regime socialista, muitos jovens viam nos shows da banda uma rara oportunidade de extravasar e de se conectar com algo além da realidade política na época. O Iron Maiden foi a primeira banda de heavy metal a atravessar a Cortina de Ferro e se apresentar em países como Polônia, Tchecoslováquia e Hungria, mesmo que com a presença e controle de autoridades estatais.
O documentário aborda, de uma forma superficial, do começo da banda aos dias atuais, passando pela exaustão das turnês, a saída de Adrian e Bruce, a chegada de Janick e Blaze, e até a recente aposentadoria do baterista Nicko Mcbrain após 42 anos tocando na banda. Nicko fez seu último show com o Maiden em São Paulo no dia 7 de dezembro de 2024, ocasião em que eu estive lá e registrei toda a emoção da despedida em meu canal no YouTube, o Detector de Metal.
Apesar da divulgação praticamente inexistente, era impossível encontrar sequer um cartaz do documentário na rede UCI do Shopping Iguatemi, seja nos totens de ingresso ou nas áreas internas do cinema. Para uma banda do tamanho do Iron Maiden, eu esperava um cuidado e uma divulgação muito maiores no Brasil, principalmente considerando a relação histórica e apaixonada que o público brasileiro tem com o grupo. Se o documentário tivesse produção da banda, talvez este fator teria sido melhor trabalhado.
No geral, Burning Ambition é uma obra feita tanto para fãs quanto para não fãs. Para quem acompanha a trajetória do Iron Maiden, fica aquela sensação de “quero mais”, mas também a satisfação de assistir a uma produção sobre a banda na tela do cinema, cercado de amigos e outros apaixonados por heavy metal. Já para o público de fora, o documentário funciona como um registro importante, ajudando a explicar por que o Iron Maiden se tornou uma das maiores bandas da história da música. Você já agradeceu hoje por viver na mesma era que o Iron Maiden?
